Mapa global da anomalia da Temperatura da Superfície do Mar, mostrando regiões mais quentes (tons de laranja/vermelho).
Por Jossana Ceolin Cera, Consultora Técnica do Instituto Rio Grandense do Arroz (IRGA).
Condições meteorológicas ocorridas em junho de 2026 no estado do Rio Grande do Sul (RS)
Embora o início de El Niño tenha sido declarado no mês passado, a atmosfera demora um tempo a responder. Isso explica um pouco o padrão ainda seco de junho, onde os acumulados de precipitação ficaram abaixo dos 120 mm, na maior parte do Estado. Algumas áreas da Fronteira Oeste, da Campanha e da Zona Sul não superaram os 80 mm (Figura 1A). Dessa forma, quase todo o RS ficou com anomalia negativa de precipitação, com exceção do extremo Oeste e do Noroeste (Figura 1B).
Figura 1. Mapa da precipitação pluvial acumulada (A) e da anomalia da precipitação (B), em mm, no estado do Rio Grande do Sul, durante o mês de junho de 2026, em relação aos valores da Normal Climatológica (NC), relativa ao período 1991-2020. Fonte de dados: INMET.
Os eventos de chuva até ocorreram com certa frequência, mas os volumes diários foram muito baixos (Figura 2). Já as temperaturas máximas e mínimas do ar tiveram um comportamento similar ao de maio, com temperaturas um pouco mais altas no início do mês, e abaixo da Normal Climatológica (NC), durante a maior parte dos dias. Na média mensal, a temperatura ficou com anomalia negativa, segundo dados do INMET.
Figura 2. Temperaturas do ar máxima e mínima diária (°C) e suas respectivas Normais Climatológicas (°C) relativas ao período 1991-2020 (nas linhas pontilhadas em vermelho e azul) e precipitação pluvial diária (mm) referentes ao mês de junho de 2026, em seis municípios da Metade Sul do RS, representativos das seis regiões arrozeiras. Fonte de dados: INMET.
Situação atual do fenômeno ENOS (El Niño - Oscilação Sul) e perspectivas
Segundo a atualização da NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), de 09 de julho de 2026, o sistema acoplado oceano-atmosfera (quando o oceano e a atmosfera atuam para reforçar o estado de El Niño) refletiu um El Niño em intensificação.
O mapa da anomalia da temperatura da superfície do mar mostra o amplo aquecimento das águas em toda a extensão do Oceano Pacífico Equatorial (Figura 3). No boletim mensal divulgado pela NOAA, a anomalia na região do Niño 3.4, considerando a metodologia antiga (ONI) foi de +1,6°C e, considerando a metodologia nova (RONI), foi de +1,06°C, para o mês de junho. Ou seja, pela metodologia antiga se está em um El Niño de forte intensidade e, pela metodologia nova, em um El Niño de moderada intensidade. A anomalia trimestral (Abr-Mai-Jun/2026), segundo o método RONI foi de +0,5°C, caracterizando o início da fase quente do ENOS; já pela metodologia antiga (ONI), a anomalia foi de +1,0°C, caracterizando o segundo trimestre em limiar de El Niño.Apenas para lembrar, a NOAA mudou a metodologia de cálculo, a partir de fevereiro deste ano, de ONI para RONI, tema já debatido em boletins anteriores. Só que, ao se analisar a Figura 3, ela parece representar os dados do método antigo. Ou seja, a anomalia na região do Niño 3.4 é mais condizente com o método antigo (+1,6°C), do que com o novo (+1,06°C).
Figura 3. Anomalia da temperatura (°C) da água da Superfície do Mar no mês de junho de 2026. O retângulo central na imagem mostra a região Niño 3.4, a qual os centros internacionais utilizam para calcular o Índice Niño (que define a ocorrência de eventos de El Niño e La Niña). Já o retângulo menor mostra a região Niño 1+2, que modula a qualidade de distribuição das chuvas, ou seja, sua regularidade de ocorrência no estado do RS. Fonte: Adaptado de CPTEC.
A NOAA aumentou a probabilidade para um evento de forte intensidade. Para o próximo trimestre (Ago-Set-Out/2026), a probabilidade é de 42% para um evento forte (anomalias entre +1,5 e +1,9°C) e de 48% para muito forte (anomalias superiores a +2,0°C). Já para o trimestre Out-Nov-Dez/2026, a probabilidade de um evento forte cai para 16%, enquanto para um evento muito forte aumenta para 81%. Lembrando que, eventos mais intensos nem sempre resultam em impactos meteorológicos e climáticos maiores. Mas, eles podem aumentar a probabilidade de ocorrência, assim como a intensidade.
O bolsão de águas subsuperficiais com anomalias positivas de temperatura segue ativo e em intensificação, ao longo dos últimos meses na região equatorial (Figura 4). Há áreas com anomalias acima dos 6°C desde maio de 2026, ou seja, essas águas estão aflorando em superfície e darão sustentação e intensidade ao El Niño que está em desenvolvimento.
Figura 4. Anomalia da temperatura (°C) subsuperficial das águas na região Equatorial do Oceano Pacífico em relação à profundidade (de 0 a 300 m), entre os meses de abril a julho de 2026. Pêntadas significam média de cinco dias consecutivos. Fonte: Adaptado de CPC/NCEP/NOAA.
Previsão de precipitação – trimestre julho, agosto e setembro de 2026 no RS
Para esse trimestre, o consenso do IRI (International Research Institute for Climate Society) indica precipitação acima dos valores da Normal Climatológica (NC) em todo o RS. O modelo CFSv2 (Climate Forecast System), da NOAA, também prevê precipitações acima da NC, em todo o RS, e para os três meses. Por sua vez, o modelo do INMET (Instituto Nacional de Meteorologia) prevê precipitações acima da NC durante os próximos três meses, com destaque para outubro (Figura 5). Ao se analisar um conjunto maior de modelos, mas que não estão expostos aqui, a convergência entre eles é de que as precipitações fiquem acima da NC a partir de agosto, preocupando o setor orizícola, que tem como meta iniciar a semeadura do arroz entre os meses de setembro e outubro.
Figura 5. Precipitação pluvial total (mm) e anomalia de precipitação (mm) previstas para agosto, setembro e outubro de 2026 no estado do RS. Fonte: adaptado de INMET.
O El Niño foi declarado pela NOAA e as precipitações mais frequentes e volumosas começaram em meados do mês de julho. E já se observa que está havendo uma intensificação na frequência das precipitações. O produtor deve ficar atento a isso nos próximos meses.
É importante ressaltar que o principal efeito do El Niño é no aumento da frequência e do volume das precipitações durante a primavera do primeiro ano (2026) e, em um segundo momento, durante o outono do ano seguinte (2027). Em anos de El Niño, há aumentos da nebulosidade, com consequente diminuição da radiação solar, da temperatura média do ar, mas sem extremos, e da umidade relativa do ar.
Em função disso, o produtor do RS deve ficar atento, na safra 2026/27, para alguns aspectos importantes:
- Aproveitar os períodos secos para fazer o preparo das áreas para a semeadura do arroz irrigado e das culturas de sequeiro em rotação, para viabilizar a semeadura dentro do período recomendado;- Maior risco de enchentes em áreas próximas de rios. Logo, recomenda-se evitar grandes investimentos nessas áreas;
- Para as lavouras de soja e milho em rotação, nas áreas baixas, priorizar um eficiente sistema de drenagem;
- Com a primavera mais chuvosa, as janelas de semeadura serão menores e, possivelmente, haverá atraso na época de semeadura (arroz e soja). Semeaduras muito tardias devem ser evitadas, primeiro devido à redução de produtividade, em decorrência da menor disponibilidade de radiação solar e, segundo, devido ao impacto secundário do El Niño durante o outono de 2027, que poderá prejudicar a operação de colheita dessas culturas devido ao maior volume e frequência de chuvas;
- A brusone, principal doença fúngica do arroz, ocorre sob condições de temperaturas em torno dos 28°C, alta umidade relativa do ar (>90%), maior nebulosidade e molhamento foliar, conforme recomendações da Comissão Técnica do Arroz (CTAR, 2025). Em anos sob El Niño, essas condições ocorrem com maior frequência. Dentre as práticas de controle dessa doença, atenção deve ser dada para a escolha de cultivares mais resistentes a doenças e da adoção do manejo preventivo;
- E, por último, mas não menos importante, é ficar atento ao sistema de irrigação para as culturas de sequeiro, como a soja, pois mesmo com El Niño, durante o verão há o risco de ocorrer algum período de 10 a 15 dias sem chuvas, com redução da produtividade de grãos.
Mantem-se a recomendação do acompanhamento contínuo das previsões meteorológicas de curto prazo (sete a 15 dias), como estratégia para aumentar a eficiência na execução das atividades agrícolas e apoiar a tomada de decisão no manejo das lavouras, assim como da previsão climática, para saber como o Oceano Pacífico irá se comportar e impactar nas chuvas do RS nos próximos meses.
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