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Primavera de 2026 deverá ser chuvosa no RS

Mapa global da anomalia da Temperatura da Superfície do Mar, mostrando regiões mais quentes (tons de laranja/vermelho).
Mapa global da anomalia da Temperatura da Superfície do Mar, mostrando regiões mais quentes (tons de laranja/vermelho).
Por Jossana Ceolin Cera, Consultora Técnica do Instituto Rio Grandense do Arroz (IRGA).

Condições meteorológicas ocorridas em julho de 2026 no estado do Rio Grande do Sul (RS)

Os primeiros sinais do El Niño começaram a ser observados na segunda quinzena de julho, com o aumento no volume das precipitações. Altos acumulados de chuva ocorreram na região Nordeste do Estado, que variaram 250 a 350 mm, em média. Os menores acumulados se concentraram nas regiões Oeste e Sul, com acumulados na faixa dos 50 a 150 mm (Figura 1A). O mapa de anomalias mostra que todo o RS teve precipitação acima dos valores da Normal Climatológica (NC), com exceção da Fronteira Oeste (Figura 1B).

Figura 1. Mapa da precipitação pluvial acumulada (A) e da anomalia da precipitação (B), em mm, no estado do Rio Grande do Sul, durante o mês de julho de 2026, em relação aos valores da Normal Climatológica (NC), relativa ao período 1991-2020. Fonte de dados: INMET
Figura 1. Mapa da precipitação pluvial acumulada (A) e da anomalia da precipitação (B), em mm, no estado do Rio Grande do Sul, durante o mês de julho de 2026, em relação aos valores da Normal Climatológica (NC), relativa ao período 1991-2020. Fonte de dados: INMET.

Os eventos de precipitação ocorreram, predominantemente, na segunda quinzena de julho (Figura 2). O padrão de temperaturas também teve dois momentos: bem abaixo da NC na primeira quinzena, e acima da NC na segunda quinzena. Na média mensal, a temperatura ficou com anomalia positiva, segundo dados do INMET.

Figura 2. Temperaturas do ar máxima e mínima diária (°C) e suas respectivas Normais Climatológicas (°C) relativas ao período 1991-2020 (nas linhas pontilhadas em vermelho e azul) e precipitação pluvial diária (mm) referentes ao mês de julho de 2026, em seis municípios da Metade Sul do RS, representativos das seis regiões arrozeiras. Fonte de dados: INMET.
Figura 2. Temperaturas do ar máxima e mínima diária (°C) e suas respectivas Normais Climatológicas (°C) relativas ao período 1991-2020 (nas linhas pontilhadas em vermelho e azul) e precipitação pluvial diária (mm) referentes ao mês de julho de 2026, em seis municípios da Metade Sul do RS, representativos das seis regiões arrozeiras. Fonte de dados: INMET.

Situação atual do fenômeno ENOS (El Niño - Oscilação Sul) e perspectivas

Segundo a atualização da NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), de 13 de agosto de 2026, o sistema acoplado oceano-atmosfera (quando o oceano e a atmosfera atuam para reforçar o estado de El Niño) refletiu-se no fortalecimento do El Niño.

O mapa da anomalia da temperatura da superfície do mar mostra o amplo aquecimento das águas em toda a extensão do Oceano Pacífico Equatorial (Figura 3). No boletim mensal divulgado pela NOAA, a anomalia na região do Niño 3.4, considerando a metodologia antiga (ONI) foi de +2,0°C e, considerando a metodologia nova (RONI), foi de +1,34°C, para o mês de julho. Ou seja, pela metodologia antiga se está em um El Niño de intensidade muito forte (ou Super El Niño) e, pela metodologia nova, em um El Niño de intensidade moderada. A anomalia trimestral (Mai-Jun-Jul/2026), segundo o método ONI foi de +1,4°C, caracterizando um El Niño moderado; já pela metodologia nova (RONI), a anomalia foi de +1,0°C, caracterizando um El Niño entre as intensidades fraca e moderada. Apenas para lembrar, a NOAA mudou a metodologia de cálculo, apartir de fevereiro deste ano, de ONI para RONI, tema já debatido em boletins anteriores. Só que, ao se analisar a Figura 3, ela parece representar os dados do método antigo. Ou seja, a anomalia na região do Niño 3.4 é mais condizente com o método antigo (+2,0°C) do que com o novo (+1,34°C).

Figura 3. Anomalia da temperatura (°C) da água da Superfície do Mar no mês de julho de 2026. O retângulo central na imagem mostra a região Niño 3.4, a qual os centros internacionais utilizam para calcular o Índice Niño (que define a ocorrência de eventos de El Niño e La Niña). Já o retângulo menor mostra a região Niño 1+2, que modula a qualidade de distribuição das chuvas, ou seja, sua regularidade de ocorrência no estado do RS. Fonte: Adaptado de CPTEC.
Figura 3. Anomalia da temperatura (°C) da água da Superfície do Mar no mês de julho de 2026. O retângulo central na imagem mostra a região Niño 3.4, a qual os centros internacionais utilizam para calcular o Índice Niño (que define a ocorrência de eventos de El Niño e La Niña). Já o retângulo menor mostra a região Niño 1+2, que modula a qualidade de distribuição das chuvas, ou seja, sua regularidade de ocorrência no estado do RS. Fonte: Adaptado de CPTEC.

A NOAA aumentou a probabilidade para um evento de intensidade muito forte (anomalias superiores a +2,0°C), de 81% para 95%, durante o trimestre Out/Nov/Dez/2026. Segundo essa previsão, este seria o trimestre onde ocorrerá o pico de intensidade do atual fenômeno climático El Niño. Lembrando que, eventos mais intensos nem sempre resultam em impactos meteorológicos e climáticos maiores. Mas, eles podem aumentar a probabilidade de ocorrência, assim como a intensidade. Além da influência do El Niño, os demais oceanos globais também estão com águas mais quentes que a média e, uma atmosfera mais quente consegue armazenar mais vapor d’água. E, assim, alimentar sistemas de chuva, aumentando o potencial para episódios de precipitação extrema em determinadas regiões.

O bolsão de águas subsuperficiais com anomalias positivas de temperatura segue ativo e em intensificação, ao longo dos últimos meses na região equatorial (Figura 4). Há áreas com anomalias acima dos 8°C desde julho de 2026, aliás, a barra de cores foi modificada, para melhor representar o significativo aquecimento. E essas águas subsuperficiais estão aflorando em superfície e dando sustentação e intensidade ao El Niño que está em desenvolvimento.

4. Anomalia da temperatura (°C) subsuperficial das águas na região Equatorial do Oceano Pacífico em relação à profundidade (de 0 a 300 m), entre os meses de maio a agosto de 2026. Pêntadas significam média de cinco dias consecutivos. Fonte: Adaptado de CPC/NCEP/NOAA.
Figura 4. Anomalia da temperatura (°C) subsuperficial das águas na região Equatorial do Oceano Pacífico em relação à profundidade (de 0 a 300 m), entre os meses de maio a agosto de 2026. Pêntadas significam média de cinco dias consecutivos. Fonte: Adaptado de CPC/NCEP/NOAA.

Previsão de precipitação – trimestre agosto, setembro e outubro de 2026 no RS

Para esse trimestre, o consenso do IRI (International Research Institute for Climate Society) indica precipitação acima dos valores da NC em todo o RS. O modelo CFSv2 (Climate Forecast System), da NOAA, também prevê precipitações acima da NC, em todo o RS e para os três meses. Por sua vez, o modelo do INMET (Instituto Nacional de Meteorologia) prevê precipitações acima da NC durante os próximos três meses, e o destaque segue sendo outubro (Figura 5). Ao se analisar um conjunto maior de modelos, mas que não estão expostos aqui, a convergência entre eles é de que as precipitações fiquem acima da NC durante toda a primavera (Set-Out/Nov/2026), preocupando o setor orizícola, que tem como meta iniciar a semeadura do arroz entre os meses de setembro e outubro.

Figura 5. Precipitação pluvial total (mm) e anomalia de precipitação (mm) previstas para setembro, outubro e novembro de 2026 no estado do RS. Fonte: adaptado de INMET.
Figura 5. Precipitação pluvial total (mm) e anomalia de precipitação (mm) previstas para setembro, outubro e novembro de 2026 no estado do RS. Fonte: adaptado de INMET.

O El Niño foi declarado pela NOAA e seus efeitos no aumento da frequência e dos volumes de precipitação já estão sendo observados.

É importante ressaltar que o principal efeito do El Niño ocorre durante a primavera do primeiro ano (2026) e, em um segundo momento, durante o outono do ano seguinte (2027). Ou seja, as precipitações devem se intensificar a partir de setembro. Em anos de El Niño, há aumento da nebulosidade, com consequente diminuição da radiação solar, aumentos da temperatura média do ar, mas sem extremos, e da umidade relativa do ar.

Em função disso, o produtor do RS deve ficar atento, na safra 2026/27, para alguns aspectos importantes:

- Aproveitar os períodos secos para fazer a semeadura do arroz irrigado e das culturas de sequeiro, dentro do período recomendado;

- Maior risco de enchentes em áreas próximas de rios. Logo, recomenda-se evitar grandes investimentos nessas áreas;

- Para as lavouras de soja e milho em rotação, nas áreas baixas, priorizar um eficiente sistema de drenagem;

- Com a primavera mais chuvosa, as janelas de semeadura serão menores e, possivelmente, haverá atraso na época de semeadura (arroz e soja). Semeaduras muito tardias devem ser evitadas, primeiro devido à redução de produtividade, em decorrência da menor disponibilidade de radiação solar e, segundo, devido ao impacto secundário do El Niño durante o outono de 2027, que poderá prejudicar a operação de colheita dessas culturas, devido ao maior volume e frequência de chuvas;

- A brusone, principal doença fúngica do arroz, ocorre sob condições de temperaturas em torno dos 28°C, alta umidade relativa do ar (>90%), maior nebulosidade e molhamento foliar, conforme recomendações da Comissão Técnica do Arroz (CTAR, 2025). Em anos sob El Niño, essas condições ocorrem com maior frequência. Dentre as práticas de controle dessa doença, atenção deve ser dada para a escolha de cultivares mais resistentes a doenças e da adoção do manejo preventivo;

- E, por último, mas não menos importante, é ficar atento ao sistema de irrigação para as culturas de sequeiro, como a soja, pois mesmo com El Niño durante o verão há o risco de ocorrer algum período de 10 a 15 dias sem chuvas, com consequente redução da produtividade de grãos.

Mantem-se a recomendação do acompanhamento contínuo das previsões meteorológicas de curto prazo (sete a 15 dias), como estratégia para aumentar a eficiência na execução das atividades agrícolas e apoiar a tomada de decisão no manejo das lavouras, assim como da previsão climática, para saber como o Oceano Pacífico irá se comportar e impactar nas chuvas do RS nos próximos meses.

IRGA