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A irregularidade nas chuvas deve continuar

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Janeiro e fevereiro deverão registrar chuvas dentro do normal ou um pouco abaixo em grande parte do Estado
Janeiro e fevereiro deverão registrar chuvas dentro do normal ou um pouco abaixo em grande parte do Estado - Foto: Reprodução/FreeImages
Por Jossana Cera

Condições ocorridas no mês de Novembro 

Em novembro tivemos maior persistência das chuvas no Noroeste, Oeste, Campanha e região Central do Rio Grande do Sul, inclusive com altos acumulados. Norte e Noroeste, climatologicamente falando, recebem mais chuva que nas demais regiões durante o mês de novembro, com acumulados superiores aos 150 mm (Imagem 1A). No entanto, a região noroeste foi a que recebeu mais chuva, acumulando mais de 280 mm (Imagem 1B), ou seja, quase o dobro da média histórica para o mês. Regiões orizícolas como Fronteira Oeste, Campanha, Central e parte da Planície Costeira Externa também registraram acumulados de precipitação acima da Normal Climatológica (Imagem 1C). O Sul do Estado teve chuvas abaixo da média, o que prejudicou um pouco o estabelecimento inicial de algumas lavouras de soja, inclusive com casos de ressemeadura. Já o excesso de chuvas atrapalhou a semeadura do arroz em boa parte da região Central do Estado, já que chovia, em média, uma vez por semana, não permitindo que o solo tivesse piso para a entrada das máquinas para efetuar a semeadura.

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Imagem 1: Mapa da Normal Climatológica (A), precipitação acumulada (B) e anomalia de precipitação (C) para o mês de Novembro de 2018. As escalas de cores indicam o acumulado de precipitação em mm (A,B) e anomalia de precipitação (C), também em mm, onde valores positivos (azul) indicam precipitação acima da média e valores negativos (laranja) indicam precipitação abaixo da média - Fonte: INMET e CPTEC/INPE

Com relação às temperaturas, elas ficaram, no geral, acima da média histórica. Todo o território gaúcho registrou temperaturas acima da média em novembro, variando de 1 a 3°C acima da Normal Climatológica. Já as temperaturas máximas ficaram dentro da normalidade na maioria das regiões, e apenas entre Rio Pardo, Porto Alegre e Serra Gaúcha que ficaram com valores entre 2 e 4°C acima da média.

De modo geral, as chuvas parecem estar acontecendo de forma intercala, com períodos mais chuvosos e períodos mais secos. E é como dezembro está se ‘desenhando’, ou seja, a primeira quinzena do mês foi seca e à segunda quinzena será de mais dias com chuvas, mesmo que venham a acontecer de forma isolada. Só lembrando, que agora, com a chegada do verão, passaremos a observar as chuvas de verão, ou seja, pancadas de chuva localizadas e passageiras. A Imagem 2 mostra a importância da boa distribuição das chuvas neste período do ano. Os mapas mostram a diferença entre a precipitação e a evapotranspiração, ou seja, é uma forma de avaliação indireta da disponibilidade hídrica em um local. Esta relação nos mostra o saldo entre precipitação pluviométrica e evapotranspiração potencial, sem considerar o armazenamento de água nos solos e nos ajuda a identificar regiões de acordo com padrões de regime hídrico, o qual influência na distribuição geográfica natural das espécies e no calendário agrícola. Grosso modo, interpretamos que os meses de dezembro e janeiro são críticos na metade Sul do Rio Grande do Sul, pois mesmo que as chuvas fiquem dentro do normal, a evapotranspiração é, na média, maior, e com isso o saldo fica negativo (Imagem 2). Assim sendo, nesses meses seria necessário que chovesse sempre acima do normal, para que as plantas não sofressem estresse hídrico e assim manteriam seu potencial produtivo.

Imagem 2: Diferença entre a precipitação pluviométrica e evapotranspiração potencial nos meses de dezembro (A) e janeiro (B), respectivamente. Regiões em vermelho indicam saldo negativo da precipitação - Fonte: Adaptado de Atlas climático da região Sul do Brasil, Embrapa

Situação atual do fenômeno ENOS (El Niño-Oscilação Sul) e perspectivas

Viemos observando o aquecimento no Oceano Pacífico Equatorial já há alguns meses, porém, está demorando para que o El Niño se estabeleça. Isso porque o fenômeno El Niño-Oscilação Sul precisa acoplar mudanças nas componentes oceânicas e atmosféricas (pressão e ventos), o que está demorando a acontecer (e talvez nem aconteça!). Com isso, continuamos sob a condição Neutra, embora tenhamos nuances de aquecimento.

A região do Niño3.4 registrou o primeiro trimestre com anomalia de +0,7°C, acima do limiar para El Niño. O problema é que o aquecimento do Oceano Pacífico não é uniforme, principalmente na região do Niño1+2 (próximo à costa do Peru), que ora está mais aquecido, ora mais frio. Isso explica também o porquê de estarmos tendo momentos chuvosos, intercalados de momentos mais secos no Rio Grande do Sul.

As águas subsuperficiais, ou seja, abaixo do nível da superfície do Pacífico também têm se mantido aquecidas, que é o que está suportando o aquecimento em superfície. Contudo, é difícil dizer se o El Niño irá, de fato, acontecer. E é difícil dizer exatamente qual será o comportamento das chuvas, já que o aquecimento que está em curso se parece um pouco com o El Niño clássico (que traz chuvas para o RS) e um pouco com o El Niño Modoki (que traz chuvas abaixo da média para o RS).

O retângulo na Imagem 3 mostra a região do Niño3.4, região que os centros internacionais utilizam para calcular o Índice Niño (índice que define eventos de El Niño e La Niña).A área marcada pelo círculo, no Oceano Atlântico Sul, mostra que a região está com temperaturas dentro do normal. Lembrando que nos últimos meses essa região vinha se mantendo mais aquecida. O aquecimento nesta região confere uma condição de maior temperatura e umidade do ar, o que favorece as chuvas, principalmente na metade Leste do Rio Grande do Sul.

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Imagem 3: Anomalia da Temperatura da Superfície do Mar no mês de Novembro de 2018 - Fonte: Adaptado de CPTEC

Para dezembro, se espera que o aquecimento continue, de forma lenta e alternando o aquecimento com resfriamento na região 1+2. Em continuando essa situação, espera-se que as chuvas aconteçam de forma intercalada. No entanto, durante o verão, o produtor deve ter mais atenção, já que como as temperaturas são mais elevadas, a evapotranspiração também aumenta e, com isso, as plantas demandarão mais água. Outro ponto a ser levado em consideração são as formas das chuvas, que tendem a ser mais isoladas e passageiras, o que pode ocasionar alguma estiagem localizada e não duradoura. Isso é o que chamamos de variabilidade da precipitação. Mesmo com toda essa variação nas chuvas, não se pode descartar o risco de chuvas intensas, com ocorrência de enchentes e alagamentos, em momentos pontuais.

Previsão para a precipitação nos próximos três meses

A previsão de probabilidades do IRI (International Research Institute for Climate and Society, da Universidade de Columbia-EUA) mostra que as chuvas devem ficar acima da média na metade Sul do Estado no trimestre DJF. Os modelos climáticos dos centros brasileiros de meteorologia (INMET e CPTEC) têm mostrado, para o trimestre DJF que partes do estado devem ter chuvas acima e partes abaixo da média.

O modelo do INMET/UFPel prevê chuvas acima da média para dezembro (Imagem 4B), em todo o Rio Grande do Sul. Contudo, durante à primeira quinzena choveu muito pouco ou nada, dependendo da região e, por isso, talvez a previsão de chuvas acima da média não se concretize em todas as regiões, contrariando a previsão mostrada no mapa. Mas as regiões da Campanha e Oeste são as que ficarão com os maiores volumes de chuva neste mês. Janeiro e fevereiro devem registrar chuvas dentro da normalidade, exceto do Sul e faixa litorânea, que devem apresentar chuvas um pouco acima do normal (Imagem 4 D,G). Voltando a salientar que janeiro e fevereiro podem ficar com chuvas abaixo da média em algumas regiões, porém é difícil dizer quais regiões, devido à grande variabilidade na precipitação.

De forma geral, as temperaturas, tanto as mínimas quanto as máximas, devem ficar entre o normal e um pouco acima do normal, embora que nos primeiros dias de dezembro tenham ficado bem abaixo da média. Até o dia 13/12, a temperatura mínima ficou entre 1 e 4 °C abaixo da média em todo o Estado e a temperatura máxima ficou entre 1 e 3 °C abaixo da média na metade Oeste.

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Imagem 4: Normal Climatológica (A, C,E), anomalia de precipitação INMET/UFPel (B, D, G) para os meses de Dezembro de 2018 e Janeiro e Fevereiro de 2019, respectivamente, para o Rio Grande do Sul - Fonte: Adaptado de CPPMet-UFPel/INMET

Resumo para os próximos meses:

  • Dezembro: A segunda quinzena será marcada pela instabilidade atmosférica, ou seja, teremos muitos dias com chuva ou nublados e temperaturas mais altas. Existe o risco para enchentes em áreas próximas a rios.
  • Janeiro e Fevereiro: Deverão registrar chuvas dentro do normal ou um pouco abaixo em grande parte do estado. No Sul, as chuvas devem ficar entre a média ou pouco acima da média. Para fevereiro segue a mesma situação, porém fevereiro poderá ter um pouco mais de chuvas na faixa litorânea do Rio Grande do Sul.
  • Março/Abril: Tudo dependerá de como os oceanos Pacífico e Atlântico se comportarão em dezembro e janeiro, mas é preciso ficar atento à chegada do Outono, estação de transição entre a estação quente e fria do ano. Neste período há intensificação das frentes frias e, com isso, poderemos ter problemas com chuvas no período da colheita. E, se o aquecimento no Pacífico persistir, ele poderá intensificar essas frentes frias.
IRGA